2 de mar de 2012

O papel do crítico de quadrinhos ou como evitar os cães


Um fato realmente patético me chamou a atenção hoje, o blog Raio Laser publicou um ótimo texto sobre produções independentes de quadrinhos brasileiros que o colega Ciro Marcondes escreveu. Eram pequenas resenhas, algumas positivas, outras nem tanto. Um ótimo texto, bem escrito e educado. O que ele recebeu em troca?

Um monte de trolls entraram no blog dele pra fazer ofensas pessoais nos comentários. E quem eram os trolls? Os próprios artistas!!!

Veja como é recebido uma crítica negativa pelos artistas de quadrinhos no Brasil. Se você não elogiar as revistinhas desses caras, chamar de "arte sequencial" e tudo, eles ficam com raivinha de você!

Conheci o Ciro por aqui, um ano atrás, pouco depois que iniciei as postagens frequentes no Caixa de Gibis. E ele apareceu com o Raio Laser, até hoje pra mim uma grata surpresa. Na maneira dele, faz algo parecido com o que pretendi fazer aqui desde o início. Passei a gostar de alguns textos dele, especialmente sobre quadrinhos europeus. Tirando de lado os maneirismos acadêmicos absolutamente chatos, que pra mim são puro pedantismo, eu aprecio o que ele faz. Por isso fiquei indignado com as respostas dos artistas.

São umas crianças que fazem um péssimo trabalho, mas se acham gênios só porque conseguiram juntar dinheiro suficiente pra pagar uma gráfica e imprimir seus rabiscos, e ai de quem diga o contrário!

Dai, comecei a refletir sobre o papel do crítico de quadrinhos...

Ouço muitas pessoas dizendo que Laerte é um gênio, Bá e Moon são gênios, Alan Moore é um gênio, não sei qual outro artista dos quadrinhos é um gênio! Parece que no mundo nascem uns 10 gênios pra cada cem mil habitantes e uma boa parte desses, em vez de se dedicar a filosofia, literatura, astronomia ou seja o que for, preferem fazer gibi. Nunca ví tanto gênio em um mesmo ramo. São tantos "gênios" nos quadrinhos! Da minha parte, como dizia o velho Augusto, Eu ouço tudo isso e calo.

Simplesmente não acho que elogios devam ser dispensados dessa maneira. Os artistas citados certamente tem suas qualidades, muitos artistas tem grandes qualidades e há alguns gênios nesse mercado, sem dúvida. Mas este tipo de abordagem surge em especial a partir dos fãs desses artistas, e deve ficar por lá com eles.

Acredito que para um crítico de quadrinhos é necessário um certo distanciamento. Sair por ai chamando este ou aquele quadrinista de gênio gera um efeito absurdo: Qualquer zé-mané que imprima um gibi passa a achar que merece tal elogio. Na minha concepção, elogios devem ser concedidos com a maior economia possível.

Do contrário, qual o resultado?

Você acostuma o artista a ser como um cachorrinho bem alimentado. Ele passa a ser mimado pela crítica, ele só aceita elogios, ou no máximo leituras ditas "imparciais" do seu trabalho. Na prática ele se ofende com críticas, e dependendo da maturidade do sujeito e da sua disponibilidade para se expor, os resultados podem ser imprevisíveis.

O melhor de todos é uma tentativa de guiar a crítica, direcionar o seu trabalho. "Faça mais assim". "Seja menos agressivo". "Você não entendeu, leia denovo". "Você pode ser incisivo, mas não seja grosseiro". E por ai vai, o artista acha que pode transformar o crítico em um empregado. Ou pior, em um relações públicas.

(Não digo que muitos "criticos" não se submetam a isso, claro que existem os que elevam suas amizades a categoria de gênios e rebaixam seus desafetos ao reino animal. Mas esses não são críticos sérios. Muitos artistas podem se sentir mais confortáveis com esses.)

A pior reação é deste tipo que vimos no blog do Ciro. O artista imaturo vem acusar o crítico de ter inveja, de ser um artista frustrado, vem com ofensas pessoais e faz um showzinho. Tudo porque não foi elogiado. Este é o cachorrinho bem alimentado que, quando falta a ração diária de elogios, fica raivoso.

Qual o papel do crítico? Ser um empregadinho do artista, dar-lhe porções diárias de elogio e lhe alimentar o ego pra que ele nunca fique raivoso? A resposta esta nos meus textos. Não idolatro ninguém nem chamo de gênio gratuitamente. Não busco nem ser agradável.

O crítico deve ser acima de tudo independente, economizar elogios, não transformar em gênio qualquer zé-mané. Outra coisa, opinião independente não esta insenta de ser ofensiva. Isso é muito relativo. O que é ofensivo pra um artista pode não o ser para outro artista, e para o crítico, muito menos.

Deve o crítico economizar nas palavras e pisar em ovos? Jamais, o crítico não deve ter medo de desagradar o artista. Ele não existe pra isso, mas pode fazê-lo, é inevitável. O crítico não é fã pra engrandecer o trabalho de alguém e chamar de gênio, sempre sendo agradável, elogiando. Ele existe pra analisar, mostrar novos caminhos pro artista, descobrir coisas que estão ali e revelar pros leitores, mas isso nem sempre é positivo. Ele nem sempre vai descobrir coisas boas, nem sempre vai ter algo bom pra revelar.

Artistas imaturos sempre vão existir, mas principalmente se forem criados com elogios, tapinhas nas costas, afagos. Se criados como cachorrinhos, um dia se revelarão raivosos. Como no Brasil publicar uma história em quadrinhos é um verdadeiro ato heroico e quem o concretiza é elevado a uma categoria acima dos meros mortais, alimentado com elogios, ser crítico de quadrinhos é uma tarefa difícil. Cabe a nós não alimentarmos os cães .



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1 Comentário:

shinobi disse...

os sites e blogs do BRASIL estão cheios de pessoas opinando sobre varias coisas, ou seja criticos aos montes mas são poucos que me agradam, qualquer critica que voçê va fazer deve ser feita com imparcialidade e inteligência com um otimo conhecimento sobre o assunto.

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