19 de mar de 2012

Conan de Wood e Cloonan é uma traição ao personagem


Aprendi a admirar as histórias de Conan pela impossibilidade de seus enredos, pelo mundo imaginário que as encerra em um ambiente completamente inverossímil, desligado do cotidiano comum, conhecido de todos nós, mas também porque são histórias que possuem uma pequena relação com a realidade, um toque amargo que impede que elas sejam apenas fantasia superficial, uma relação que gera de imediato a identificação positiva com o leitor.

A Era Hiboriana é um ambiente completamente fictício criado por Robert Howard, assim como a Terra-Média de Tolkien, mas foi construída a partir de referências históricas de várias épocas e regiões. É uma ficção construída com uma textura realista. Seus personagens, para se inserir nesse contexto, tiveram a psicologia moldada com a mesma fôrma. Howard parece ter optado por trazer suas criações para muito próximo do homem comum, mesmo que sejam bárbaros, guerreiros, piratas, monarcas, sacerdotes de cultos arcanos ou mesmo monstros.

Howard era um escritor de vida social limitada, portanto é de se esperar que, como todo misantropo, não tivesse muita experiência para descrever seres humanos completos, com vicissitudes e a aspereza que todos tem. Porém as histórias de Conan são cheias de traições, mentiras, vaidade, cobiça, inveja, perjúrio, ganância, violência, medo, covardia, superstição, ignorância e todo tipo de defeito humano que encontramos bem perto de todos nós. No fundo é isso que nos atrai e prende a Era Hiboriana, aquilo que está em sintonia com nosso trágico mundo real. Robert Howard tinha certamente uma visão pessimista da humanidade.

Sendo assim, poderia faltar romance, amizade e ternura? É certo que, ao contrário de seu amigo H. P. Lovecraft, cujos personagens nunca demonstravam sentimentos tão vulgares, Howard quase chegou a retratá-los. Há um pouco disso nos contos de Conan. Mas para o modelo vigente hoje, o Cimério é um personagem quase sem emoções. Ele teve muitas mulheres, a mais importante foi Bêlit, a guerreira pirata, mas romance mesmo é algo que falta á Era Hiboriana.

A nova abordagem de Conan, lançada mês passado nos EUA pela Dark Horse, traz Brian Wood no roteiro e Becky Cloonan na arte, recontando a saga Rainha da Costa Negra. Ambos os artistas são conhecidos por HQs alternativas, exploram gêneros alheios ao mainstream ou releituras de gêneros clássicos. No momento foram apenas dois números lançados, mas já é o suficiente pra se ter uma primeira impressão do que é esta nova versão de Conan.

Wood é um escritor que deixou sua marca em séries tardias da Vertigo, como DMZ e Northlanders, e em HQs alternativas como Local e Demo. Já Cloonan é menos conhecida. Ela trabalhou com Wood em Demo e tem ligação com a cultura "emo", mangá e coisas terríveis desse tipo. Trabalhou com o vocalista da banda My Chemical Romance e em uma coletânea que incluia os artistas brasileiros Bá e Moon. Nem preciso falar muito do que se espera de artistas com esse currículo.

O trabalho de Wood e Cloonan em Conan responde a uma onda revisionista que pretende aproximar os personagens clássicos dos quadrinhos a um público mais adulto, teoricamente, ou um público mais diversificado, que nunca teve contato com HQs. Para isso a aposta é "humanizar" os personagens, trazendo eles para mais próximo do leitor. As emoções exageradas e as caracterizações menos fantásticas e supostamente mais realistas seriam a solução para atingir este novo público. Em entrevistas, Wood e Cloonan citaram o público feminino como um alvo de sua estratégia.

Mas o que realmente aconteceu nesta nova apresentação de Conan é a quase completa descaracterização do personagem, uma traição as suas origens em nome de um virtuosismo piegas praticado por dois artistas estranhos a sua mitologia, mais preocupados em impor o seu estilo e preferências pessoais do que em colaborar com o enriquecimento do seu cânone.

Em Conan The Barbarian #1 e #2, o revisionismo barato abriu espaço para o sentimentalismo de soap opera e para o mais desonesto engodo. Estão vendendo um Conan que não é Conan. É Brian Wood & Becky Cloonan, mas não é Conan. Como se nada existisse anteriormente, o personagem é apenas uma vitrine para o trabalho da dupla.

No primeiro número, Conan está em Messantia, capital de Argos, fugindo dos homens da lei da cidade. Na noite anterior, ele havia presenciado e se envovido sem querer em um crime, e por isso foi preso e levado a julgamento. Impaciente com o juiz que lhe dava lições sobre os seus deveres para com o estado, Conan esmaga o crânio do magistrado e foge em um cavalo roubado rumo ao porto, com uma multidão de guardas em seu encalço. Em um salto estilo Príncipe da Pérsia, Conan chega a um barco de mercadores ancorado no lugar. Ele força os marinheiros a levá-lo embora dalí, mas sem entrar em conflito com eles. Os marujos cobram a passagem, mas Conan oferece suas habilidades como guerreiro em pagamento.

Conan conversa com os marinheiros e ganha a simpatia de todos automaticamente. O capitão do navio se chama Tito e trabalha comercializando mercadorias na rota Kush-Argos. Conan conta a sua história e convence os mercadores a ajudá-lo. Tito aceita Conan como um protetor do navio, mas, é lógico, eles fazem uma profunda amizade e Tito o leva até Kush. Com isso o mercador fica impossibilitado de voltar a Messantia, tendo um foragido da lei a bordo.

No caminho, o capitão conta histórias para Conan, inclusive sobre a Rainha da Costa Negra, a lendária pirata Bêlit, que assola os mares subjugando os homens ao seu domínio. Conan começa a imaginar a pirata como uma espécie de mulher-demônio. Em terra firme, eles ficam sabendo que Bêlit ronda a costa de Kush e Tito teme pelo seu navio. Ele não pode voltar a Argos com Conan e pede que ele parta, mas o Cimério lhe jurou lealdade e quer enfrentar os piratas, e é o que obviamente acontece.

No segundo número ocorre o conflito entre os homens de Tito e os Corsários Negros de Bêlit, onde teremos o primeiro contato de Conan com a sua idealizada mulher-demônio, a bordo do navio Tigresa.

Basicamente a adaptação segue as linhas gerais da primeira abordagem feita em quadrinhos, por Roy Thomas e John Buscema: Conan foge de Messantia e pega de assalto um barco de mercadores que parte rumo a Kush, de volta ao mar eles encontram Bêlit e seus corsários, a partir dai Conan se envolve com ela. Porém, nesta adaptação, Brian Wood imprime a sua "marca", vamos dizer. Ele tenta "humanizar" o personagem e a história. Conan não é um bárbaro que se impõe pela força, como na primeira adaptação de Thomas. Ele invade o barco dos mercadores (trazendo grandes problemas) mas conversa com eles, até convencê-los a lhe dar ajuda, em uma manobra improvável. Quando Tito fica sabendo da proximidade de Bêlit, Conan conversa com ele e o convence a enfrentar a ameaça, em outra situação forçada.

Conan repete diversas vezes que jurou amizade a Tito, é um tagarela e não o homem melancólico descrito por Howard e Thomas, há mesmo uma ênfase nisso. Conan também passa longos momentos imaginando Bêlit, como um garoto apaixonado. Ele não é o aventureiro frio e irascível de suas versões anteriores.

Todo o roteiro se concentra nas emoções de Conan, os aspectos de aventura e fantasia ficam de lado. O importante, para Wood, é trazer Conan para o senso comum e para seu público alternativo. Bêlit é travestida em uma figura sobrenatural, sem razão alguma além de abrir a possibilidade para a artista mostrar uma mulher vampiresca, típica da iconografia emo. Wood trabalhou claramente em modificações no texto original para garantir que a estética alternativa e de romance se imponha.

Estética emo

A arte de Becky Cloonan mostra um Conan muito menos musculoso, muito mais jovem e sem aquela expressão ameaçadora que Buscema nos educou a apreciar. Seu Conan parece um rapaz boa praça, carismático, conversador, um retrato de Don Juan na Era Hiboriana. Cloonan não tem habilidade alguma pra desenhar figuras soturnas ou selvagens. Conan aqui é fofinho, bonitinho, os marinheiros são esfarrapados, mas parecem saídos de um seriado de TV, limpinhos. Os Corsários negros parecem os monstrinhos de desenho animado e mangá, uns bonequinhos de toy art rabiscados; Bêlit é uma figura vampiresca típica de capas de disco emo. O próprio Conan é andrógino, como os emos se apresentam.

Conan tagarela e menininha

Nas cenas de violência, Cloonan mostra o máximo possível, mas parece desenhar com nojo. Ela se esforça pra dizer "ei aqui esta a violência e a selvageria", mas as cores são tão bonitinhas, o traço é delicado e infantil e o clima é tão publicitário que não engana ninguém.

Lutas estilo mangá

Seu Conan parece um jovem emo em crise de paixão por uma menina que nunca viu. Além disso ele é afeminado em trejeitos e aparência.

Conan afeminado

A arte de Becky Cloonan é completamente inadequada para Conan. O texto de Brian Wood também. Conhecidos por histórias de personagens comuns em situações do cotidiano, eles se especializaram em falar de relacionamentos, sentimentos, probleminhas urbanos e todo tipo de neuras e pieguice que invadiu as histórias em quadrinhos alternativas americanas nos últimos anos. O Conan deles se concentra nisso e é, portanto, um engodo.

Este Conan sofisticado (falsificado) em imagens e palavras é uma traição ao personagem, um disparate. Na ânsia de renovar a franquia e aproximá-la a novas audiências, a essência foi retirada e substituída por um recheio de leviandades. Wood e Cloonan forçam uma identificação do leitor descaracterizando Conan. A amizade com Tito e os marinheiros é forçada, a fixação em Bêlit é forçada, todo sentimento é levado ao extremo pra dar vazão ao estilo dos autores e sua estética pós-moderna. Conan não precisa disso pra ser mais do que uma história de fantasia, ele só precisa manter o toque amargo do seu criador original.

Robert Howard moldou a Era Hiborian em fantasia, mas com elementos da realidade. A visão de mundo de Howard era cruel, grosseira, e na sua versão trágica da história humana, ele dotou Conan e seus coadjuvantes dos nossos piores defeitos. Isso os trouxe próximos de todos nós, e assim as histórias são mais do que fantasia inverossímil. Conan não é um campo aberto pra pieguice e pro romance barato, pra estética doce e afável que abandone sua essência mordaz. A abordagem de Wood e Cloonan tira o que Conan tem de mais interessante, o incomum, o inusitado, o grosso modo de ver as coisas que transparece no original e foi mantido em suas primeiras adaptações. Se estes novos autores tivessem mantido essa essência, ou se vierem a recuperá-la em novos números, será interessante, mas por enquanto, este novo Conan pra mim não é Conan.


...

10 Comentários:

Brum disse...

Da maneira que a coisa tá indo, na próxima adaptação pro cinema, vão chamar o Fiuk pra fazer o Conan...lamentável, uma falta de respeito

Jackson disse...

Não tenho como ver um personagem desses e dizer que é o Conan!!! Onde esta o espírito indomável do barbaro simerio? ISSO NÃO É CONAN!!!!! Pode ser qualquer coisa, menos Conan. Ê com grande pesar e desprazer que vejo isso; principalmente depois do excelente trabalho desenvolvido com o cimerio por Guery Nord. Lamentável.

Fernando Aoki disse...

“Mas... essa Coca-cola é Fanta!!!!”

anedotário popular

falando de arte disse...

Em que tempos nos chegamos...

eueueueueueue disse...

parece mangá kkkkkk

Daninformações disse...

Parei de ler gibis quando percebi que a arte (desenhos) é inversamente proporcional à tecnologia. Com tantos recursos, eu esperava que à essas alturas teríamos desenhistas mais hábeis que Sal Buscema, a quem eu não gostava na época, mas que hoje vejo como um monstro perto do que se vê. Dias atrás, em uma revistaria resolvi comprar uma edição do Aranha, mas antes resolvi ver o conteúdo. Graças a Deus que olhei! Desisti na mesma hora quando vi a arte.

luku119g disse...

RIDÍCULA ESSA NOVA VERSÃO DE CONAN É UMA FALTA DE RESPEITO DO CARALHO!!
KD AQUELE GIGANTE DE BRONZE QUE POUCO FALA E CLAMA A CROM, UM DEUS QUE CUJO ELE DIZ NÃO SE IMPORTA COM OS MORTAIS, O CONAN VERDADEIRO PRA MIN É ESSE:http://marvelscustoms.com/bblackwolf/albums/Conan/Conan_5_le_guerrier/010_Joe_Jusko__conan.jpg
DESENHADO POR JOE JUSKO E COMPANHIA.

Fabio Barbosa disse...

Pois é...Para quem acompanha conan a 30 anos, fiquei perplexo e desanimado. Conan já teve 4 títulos sendo publicados ao mesmo tempo no Brasil, sempre foi um campeão de vendas e isso não foi à toa. O que esta ¨artista¨ fez foi tentar afeminar o Conan (deixo claro que não tenho preconceitos contra gays e afins) porém não se pode tentar destruir a verdadeira imagem do personagem. Conan é um gigante musculoso, assassino e ladrão, e foi assim descrito pelo seu criador. Artistas como Frazetta, Buscema e Alcatena (desenhava conan como um demônio) captaram a mensagem de R.E.H (criador de Conan), e foi isso que popularizou o personagem.
Estou muito decepcionado com a Dark Horse por ter permitido essa desgraça.

bernardo disse...

porra, povo não é tão ruim assim..... se lembram daquele conan da mythos que nem sandalias usava, era igual a um pivete do largo da carioca......e os desenhos eram de dar dó, tinha uns leões que meu sobrinho de sete anos desenhava melhor

aquele troglodita do conan de john buscema marcou aquela época, mas é preciso se adaptar... ninguem tinha tantos musculos assim, nem nos originais do howard

e tem historias do conan do roy thomas que o conan surge falando horrores...

é ruim ,é, mas acho que é um reflexo do mundo emo-distantes do mundo atual

Sandro disse...

Sou só mais um na legião de indignados... cada vez mais meus gibis antigos do Conan valem mais graças a um lixo como esse que essa dupla fez. Só não entendo como as pessoas que possuem os direitos sobre os contos dele deixam que se façam histórias que descaracterizam tanto o personagem.

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