17 de jan de 2012

Holy Terror - Obra injustiçada marca grande retorno de Frank Miller


Em 2 de novembro de 2004, o cineasta, ator e escritor holandês Theo Van Gogh foi assassinado por um terrorista islâmico. Ele foi esfaqueado e levou sete tiros no meio da rua, morrendo na hora. Theo (que era sobrinho-neto do famoso pintor Vincent Van Gogh) havia escrito artigos representando Maomé como pedófilo por ele ter se casado com uma menina de 9 anos, e um livro, Allah weet het beter ("Allah sabe melhor"), onde ironizava o islamismo, e havia finalmente dirigido um filme, Submission, onde denunciava maltratos a mulheres nas sociedades islâmicas. Theo foi brutalmente assassinado por crime de opinião.

A primeira vez que lí uma crítica a graphic novel Holy Terror, de Frank Miller, eu pensei em Theo Van Gogh. Para minha surpresa, agora que lí a HQ, descobri que a obra é dedicada a ele.

Holy Terror fez com que Frank Miller fosse acusado de islamofobia por uma importante organização islâmica americana, e eu imaginei que ele seria perseguido por fundamentalistas. Pelo que se sabe, até agora nenhum islâmico se pronunciou querendo matá-lo, apesar de ele ter dito anos atrás que já estava pronto pra uma sentença de morte. Mas os islâmicos radicais parecem não se importar muito com quadrinhos, Miller acabou dizimado mesmo foi pela crítica de HQs. Uma verdadeira horda de fundamentalistas definiu Holy Terror como o trabalho de um artista em decadência, demente, senil.

Esta afirmação é verdadeira? Não. Frank Miller foi claramente injustiçado.

De fato, Holy Terror é uma propaganda antiterrorista e associa o terrorismo ao islamismo. Mostra uma versão caricata e estúpida dessa religião, mas em nenhum momento é uma obra menor das histórias em quadrinhos. Pelo contrário, esta graphic novel marca o retorno de Miller ao posto de um dos melhores artistas do mercado em atividade.

A HQ tem início com uma citação “If you meet the infidel, kill the infidel”, esta frase seria de Maomé, mas não consegui comprovar a origem. A história é narrada a partir do encontro do herói The Fixer, com Natalie Stack, uma ladra com quem ele vive uma relação de amor e ódio. A dupla percorre os telhados de Empire City em sua tensão sexual, ele a persegue por roubo, mas quer mesmo é se pegar com ela. Até que uma explosão causada por uma terrorista chamada Amina, seguida de uma série de ataques, os leva a perseguir, torturar e matar terroristas indiscriminadamente pelas noites da cidade, chegando a uma mesquita gigantesca, onde eles exterminam o mal. O roteiro é somente isso, simples e direto como uma propaganda de guerra deve ser. O inimigo é mostrado de forma distorcida.

Frank Miller quase não consegue realizar essa propaganda de guerra. O projeto inicial representaria Batman e Mulher-Gato, a DC voltou atrás e ele criou os novos personagens. O projeto foi levado em frente pela Legendary, uma editora nova. Propagandas de guerra nas histórias em quadrinhos eram muito comuns nos anos 1940 e 1950. Até o advento do movimento pacifista nos anos 1960, os quadrinhos mostravam visões distorcidas dos inimigos dos americanos e ninguém reclamava. Miller pretendia fazer um revival desses quadrinhos.

Porém, como eu já tinha apontado aqui em outro artigo, antes mesmo da HQ ser lançada, muitas pessoas já falavam contra, sem levar em consideração que ela representa um conceito já explorado por outro artista consagrado. Em V de Vingança, Alan Moore mostra um terrorista que mata pelo seu ideal de liberdade, e a HQ é bem aceita pela sua ideologia. Toda a obra de Moore tem um pouco de propaganda.

A dupla de heróis de Frank Miller faz o que o autor acredita ser o mesmo, matar terroristas islâmicos da alQuaeda em nome da liberdade. O grande problema é que Miller é conservador de direita, Alan Moore é liberal de esquerda. No senso politicamente correto que dominou a cultura ocidental dos últimos anos, ser de esquerda e matar pelos seus ideais é heroico, ser de direita já é um crime antes mesmo do sangue jorrar. É crime de opinião.

Por esse crime é que Miller foi julgado e condenado. Mas como peça de arte, como HQ, Holy Terror tem valor. Mesmo seu roteiro tem sutilezas ignoradas pelos críticos e não é tão simples quanto parece. Justiça seja feita, basta apenas algumas imagens para provar que Miller não fez uma obra menor. Veja as páginas abaixo, o que há de menor nelas em comparação aos trabalhos anteriores dele como O Cavaleiro das Trevas e Sin City? Sem dúvida, nada.





Bela composição, ação, movimento, técnica perfeita, estilo único. Este sempre foi Frank Miller. Que artistas atingem este nível hoje? Pouquíssimos. Este artista esta decadente, senil? Não me parece.






Em termos de trabalho gráfico, Holy terror é excelente. É emocionante, bem narrado, aterrorizante e inovador. Mas ninguém quis ver isso. Toda a crítica se concentrou em seu roteiro, simplificando-o, tirando-lhe o sentido de propaganda e impigindo-lhe o estigma de crime de opinião. Mas o roteiro não é nada tão maligno assim, ele representa uma forma de pensar muito comum nos EUA e em qualquer país em tempos de guerra. É baseado em mitos, fantasia.

A terrorista Amina, que dá início aos ataques, aparece como uma estudante de intercâmbio de um país estrangeiro conversando com um desconhecido em um bar. Quando ele lhe oferece uma bebida ela diz que de onde ela vem as pessoas não bebem. Ele pergunta: onde fica esse país, na Idade Média? E ela responde: talvez no futuro. Ai começa a sutileza de Miller, apontando um dos principais mitos da direita americana, a islamização dos Estados Unidos em um futuro próximo. Logo em seguida vem a primeira explosão. Os heróis decidem agir.

Contrastando com as páginas minuciosas das cenas que envolvem Natalie e Fixer, das explosões que destroem a cidade e a estátua da Justiça Cega (uma versão da Estátua da Liberdade de Nova York), Miller inseriu caricaturas de terroristas islâmicos junto com figuras proeminentes da esquerda americana. Abaixo vemos o cineasta Michael Moore.

Figuras do governo americano e mais terroristas:

Os ditadores Muamar Kadafi, Mahmoud Ahmadinejad e Kim Jong il. Além de Barack Obama, que aparece duas vezes na HQ, alegre com os ataques terroristas. Como sabemos, um dos mitos explorados pela direita americana é de que há uma conspiração envolvendo todas essas figuras e Obama seria um islâmico infiltrado nos EUA pronto a entregar o país para a dominação dos terroristas! Quer algo mais fantasioso?




Aqui Obama faz um sinal positivo e logo depois, um islâmico espanca sua mulher:


Em outras cenas, Miller mostra homens árabes torturando e apedrejando mulheres, contrastando essas cenas com a de americanos se divertindo, assistindo Transformers em um cinema! Eles odeiam a liberdade americana. É simples: não é algo a ser levado a sério, mas muitas pessoas se recusam a entender isso.

Miller não é tão óbvio assim, a história tem diálogos interessantes. Em um momento, Fixer revela a Natalie que vai mandar matar o comissário de polícia, pois ele colaborou com os terroristas. Se a obra fosse tão simplória e maniqueista como apontaram os críticos, como um policial poderia ter ajudado os terroristas? Um policial americano!


E ao iniciar a caçada, Natalie propõe que eles roubem um carro, Fixer rouba uma viatura de polícia!


Natalie esta sempre ironizando o jeito psicótico de Fixer, perguntando por que ele sai por ai matando bandidos "pais assassinados?" "planeta natal destruído?". Para me manter em forma, ele diz. O tempo todo ele se questiona se esta se apaixonando por ela. Ele é claramente misógino "eu não posso me apaixonar, eu nunca me apaixono". Mas no final, ele se diz apaixonado. Os islâmicos são mostrados como um povo que odeia as mulheres. No final, Fixer encontra a redenção nos braços de uma mulher. Ele a salva dos radicais agarrando-a carinhosamente, como quem pega um bebê. É bonito, é fantasia.

Holy terror tem problemas, as coisas acontecem sem explicação. Os terroristas tem aviões pra destruir a Estátua, mísseis pra destruir helicópteros, possuem uma mesquita gigantesca nos subterrâneos da cidade. Nada disso importa, isso é fantasia. Você pode ler a HQ e aceitar simplesmente. Mesmo que a mesquita seja decorada com monstros! O principal problema é que em determinado momento você não sabe a quem pertence os letreiros de pensamento, mas não é nada que comprometa a leitura.

A graphic novel é divertida e como peça de propaganda cumpriu sua função. Miller estigmatizou uma religião, mas não trouxe dados, não falou sério, não instigou ódio ao islã, não pode ser condenado por isso. Quantos artista não são consagrados por estigmatizar o Cristianismo? Se você lê com a mente aberta e se diverte, como as crianças dos anos 1940 liam gibis mostrando os alemães e japoneses como criaturas sub-humanas e riam e se divertiam, não há mal nenhum. Em um tempo de guerra as pessoas necessitam dessa fantasia. Depois que a guerra passa, esses quadrinhos saem de moda. Holy Terror veio em um tempo de guerra para os americanos e eles precisam disso, não é a toa que a HQ vendeu bem. Depois ela será esquecida. O ódio esta em quem lê e leva a sério.

Theo Van Gogh foi morto por um crime de opinião. Miller tem sido execrado por suas opiniões. Para muitos ele é um artista morto. Holy Terror é uma obra de valor e foi injustiçada. Miller não é um criminoso, nem está decadente como artista. Ele apenas pensa diferente da maioria e é corajoso pra falar o que pensa, em uma época de artistas covardes.

Não esta na hora de darmos mais valor a liberdade de expressão?



...

6 Comentários:

Rogério Olivieri (Roger) disse...

Vou comprar essa graphic novel assim que possível...

Rui Moraes disse...

Sera que a liberade de expressao nao esta virando um mito? O massacre a opiniao de um artista vem sempre antes da analise da sua obra.

Tavares, parabens pelo texto, diferente de outros sites nacionais que analisaram essa obra (leia-se Omelete), aqui fiquei com vontade de conhece-la.

Tem ideia se ela sera lancada no Brasil por alguma editora?

Tavares disse...

Rui, é um caso mesmo extremo. Nos sites americanos ocorreu o mesmo. Liderados pela revista Wired.

Felizmente, o público mostrou bom senso e comprou a HQ.

Não tenho nenhuma noção de um lançamento no Brasil, até mesmo porque ela seria provavelmente uma obra censurada pelo "ministério público". O Ministério da Verdade do PT.

Axl disse...

e pensar que frank miller já foi bom

André Peroba disse...

Infelizmente estamos vivendo essa época maldita do politicamente correto, guiada por essa corja de esquerda que só faz roubar e assaltar os cofres públicos. Não sou de direita, muito menos de esquerda, pois não sou hipócrita. Tenho a convicção de que a estupidez humana está por trás de todos os nossos problemas. Vivemos numa era de mentiras, de farsa generalizada, de patrulhamento ideológico nefasto. Talvez algum dia a população, as pessoas, acorde para isso, e resolva arregaçar as mangas e trabalhar de fato por um mundo melhor e mais justo, por mais utópico que isso seja.
Desde que soube da publicação dessa obra no Brasil fiquei muito feliz. Parabéns a Panini por não se deixar levar pelos Omeletes da vida e pelos meliantes travestidos de defensores do povo, espalhados pela rede. O único objetivo dessa gente ao assumir o poder é roubar, roubar, roubar e enganar a população com migalhas. Nunca lutaram, ou lutam, por liberdade e democracia. Almejam, sim, uma ditadura, em que quem discorde seja amordaçado, excluído ou dizimado. Assim eles ficam livres para espalhar sua ideologia nefasta e corrupta. Parabéns ao Frank Miller. E congratulações ao blogueiro.

Sala Especial disse...

Esta é, de longe, um dos piores gibis que eu já li em toda a minha vida, e olha que eu leio gibi desde os anos 60. Sério, a CENSURA foi feita para aberrações como essa. Num mundo justo, todos os originais dessa porcaria seriam queimados junto com todos os volumes impressos e, se bobear, queimariam o autor junto.

A Panini vende a 50 reais algo que não vale nem 5 centavos.

P.S.: Que LIXO de crítica. Típica de um fanboy que só conhece o mundo através dos gibis. Ridículo.

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